Depois de Paris e da Holanda, Sérgio Godinho foi, em 1972, viver para o Canadá. Antes disso vivia uma situação precária, sendo formalmente já um refratário, e o Canadá – o país da sua companheira, Sheila – surgia como uma via dupla: por um lado, mais um país novo, mais uma aventura; por outro, a chance de ser um cidadão novamente legal, se casasse. Assim foi que a vida de saltimbanco de Godinho atravessou o Atlântico, onde, entre outros trabalhos, se juntou a um grupo de teatro. Em 1974 estava prevista uma viagem à Europa, a pedido do pai Godinho, que queria juntar os filhos para comemorar o seu 60º aniversário. Não podendo Sérgio entrar em Portugal sem ser preso, o ponto de encontro era ainda vago…podia ser em Paris, ou Espanha, logo se via.
É neste momento que rebenta, em Lisboa, o 25 de Abril de 1974. Como a viagem para a Europa estava já paga, Sérgio fez-se ao caminho, chegando a Paris a 1 de Maio, na posse de informações ainda pouco claras sobre a situação em Portugal. Muitos dos portugueses na capital francesa já tinham vindo a correr para celebrar a liberdade no seu país e Sérgio, depois de lhe assegurarem que não havia perigo (era difícil de acreditar!), veio então para Lisboa. Na mala, trazia algumas canções que andava a preparar para o seu terceiro disco; no peito, a emoção de ser finalmente um homem livre, e mais: ver o seu país em delírio coletivo.


