Laurie Anderson, norte-americana nascida em 1947, é uma compositora e artista experimental multimédia. A propósito da recente reedição resmasterizada e em vinil vermelho de “Big Science”, o seu primeiro álbum a solo, de 1982, vamos refletir um pouco sobre ela e em particular sobre o tema mais conhecido desse álbum, que tem uma história muito interessante e peculiar.

Laurie Anderson

Laurie Anderson, nascida nos Estados Unidos da América em 1947, é uma compositora e artista experimental multimédia, cujo trabalho abarca a música, a performance, o cinema e até o desenvolvimento de novos instrumentos.

Viajou muito nos anos 70, conta-nos: “Trabalhei numa plantação de tabaco, no Kentucky, fui à boleia até ao Polo Norte, morei numa cabana yurt em Chiapas [no México] e trabalhei também numa comuna de comunicação. Tive a minha própria visão romântica da estrada.” Formou-se em violino, história de arte e escultura e apresentou-se em Nova Iorque, nos espaços frequentados pelos apreciadores de artes performativas e de novas músicas, como Philip Glass e David Byrne. Aí apresentou os seus projetos artísticos, com novas abordagens para a música, juntando-lhe a representação, a imagem e, de uma forma mais global e abstrata, a performance multimédia.

Mas isso não bastava, pois ela própria procurava e criava novas sonoridades ao modificar o arco do seu violino, substituindo a usual crina de cavalo do arco por fita de gravação, com que friccionava uma cabeça magnética colocada na ponte do instrumento, assim conseguindo obter sonoridades inusuais e surpreendentes. A intervenção sobre instrumentos começara já aí, mas haveria de ter mais desenvolvimentos ao longo de toda a sua vida de artista.

Em 1979 estreia-se numa edição em cassete, lançada na Áustria pela Modern Art Galerie. Na face A da dita estavam dois temas de Peter Downsbrough (artista conceptual) e um de Julia Heyward (artista multimédia) e, na face B, a composição de Laurie Anderson.

Depois, em 1981, participou num LP duplo da norte-americana Giorno Poetry Systems, editora dirigida pelo ativista, poeta e performer John Giorno. No disco surgem cinco temas de Laurie Anderson ao longo de toda a face A, depois dois do poeta e editor na face B, oito do escritor e declamador William S. Burroughs na face C e, por fim, um de cada um deles na face D. O vinil duplo teve também, na altura, uma edição em cassete dupla e só anos depois foi reeditado em CD, mas hoje é já raro e muito difícil de encontrar.

Enquanto trabalhava na que viria a ser uma longa e lendária peça de teatro com artes performativas e com a duração de mais de 7 horas, de que falaremos mais à frente, ela criou o tema “O Superman (For Massenet)”, que era a sua visão eletrónica e contemporânea da ária “O Souverain”, de Jules Massenet, um compositor francês do século XIX. Esse tema foi lançado primeiro num EP de 7″, pela editora independente One Ten Records, de Nova Iorque. Mas logo depois, do outro lado do Atlântico, o radialista britânico John Peel apresentava na BBC Radio 1 essa peça de 8 minutos e 21 segundos, assim atraindo a atenção da imprensa e do público. O estranho disco chegou ao segundo lugar do top britânico de singles e a editora multinacional Warner Bros. propôs-lhe um inesperado contrato para a relançar no mercado internacional.

Assim, no ano seguinte (1982), já na Warner, sai o seu primeiro álbum a solo, de título genérico “Big Science”. Nele temos Laurie Anderson na voz, vocoder, violino, eletrónica, órgão Farfisa, sintetizador Oberheim, marimba e diversas percussões, encontrando-se acompanhada por Roma Baran, Perry Hoberman, Bill Obrecht, Peter Gordon e David Van Tieghem, entre outros. Há cinco temas no lado A — “From The Air”, “Big Science”, “Sweaters”, “Walking & Falling” e “Born, Never Asked” — e mais três no lado B — começando pelo já mítico “O Superman (For Massenet)”, depois “Example #22” e finalmente “Let X=X/It Tango”. “Big Science” foi constantemente reeditado ao longo dos anos e teve, já em 2021, uma primeira edição remasterizada em vinil (vermelho), com o selo da Nonesuch (associada da Warner), que motivou esta apresentação retrospetiva sobre a obra e a sua compositora.

“United States Live”, trabalho estreado e gravado na Brooklyn Academy of Music, de Nova Iorque, no início de 1983, é hoje considerado a sua obra-prima. O álbum foi lançado numa caixa de 5 LPs (e mais tarde reeditado em 4 CDs), reproduzindo toda a performance de 8 horas de duração, que incluía partes musicais, momentos narrativos e encenações sobre a vida nos Estados Unidos da América. Aí se encontra “O Superman (For Massenet)” na sua versão completa com 10 minutos e 57 segundos. “There was something about Massenet’s aria “O Souverain” — which inspired “O Superman” — that almost stopped my heart. The pauses, the melody. “O souverain, ô juge, ô père” (O Lord, o judge, o father). A prayer about empire, ambition, and loss.”, conta a autora. Acrescenta ainda que o seu objetivo foi não apenas o de ser a narradora mas, também, o de se pôr no papel do forasteiro, do estrangeiro, e de retratar à distância o seu próprio país. “United States Live” era assim o retrato de um país com uma cultura tão vaiada quanto aplaudida fora de fronteiras e que procurava um caminho novo num mundo digital, onde iria ter que (re)aprender a viver.

Laurie Anderson prosseguiu a sua carreira musical de forma firme e constante ao longo dos anos. Colaborou e recebeu colaborações de músicos tão apreciados por nós como Arto Lindsay, Brian Eno, David Sylvian, George Lewis, Hector Zazou, John Zorn, Peter Gabriel, Ryuichi Sakamoto e até Lou Reed, que conheceu em 1992 e com quem se casou em 2008 (o mítico músico, que fundou The Velvet Underground em 1964, morreria em 2013).

A compositora e violinista apresentou-se em Portugal por diversas vezes — em duas das quais, em distintos períodos, eu tive a oportunidade e o privilégio de a observar e apreciar ao vivo.

No que diz respeito aos últimos anos, assinale-se o seu aclamado filme e disco de 2015 “Heart Of A Dog”, ou em 2018 a sua premiada parceria com o Kronos Quartet no álbum “Landfall” e em 2019 o seu mais recente trabalho discográfico “Songs From The Bardo”, com Tenzin Choegyal e Jesse Paris Smith. Para além destas obras, Laurie Anderson também assinou com Hsin-Chien Huang o filme de realidade virtual “La Camera Insabbiata”, que em 2017 venceu o prémio Best VR Experience, do Festival de Cinema de Veneza e, ainda, em 2018, a publicação da autobiografia “All The Things I Lost In The Flood: Essays On Pictures, Language And Code”, que é o ensaio mais completo até hoje editado acerca da sua distinta carreira.

Disse ela:

Hi. I’m not home right now. But if you want to leave a
Message, just start talking at the sound of the tone.

Hello?
Is anybody home?
Well, you don’t know me, but I know you
And I’ve got a message to give to you

Here come the planes
So you better get ready
Ready to go
Here come the planes.
They’re American planes
Made in America
Smoking or non-smoking?

There’s always justice
And when justice is gone
There’s always force
And when force is gone,
There’s always Mom.
Hi Mom!
So hold me, Mom, in your long arms

Your electronic arms.
In your arms.
So hold me, Mom, in your long arms
Your petrochemical arms
Your military arms
In your electronic arms

Digo eu: esta é só uma citação de algumas partes (coladas entre si) de “O Superman” mas, tal como aqui se pode perceber, toda a música de Laurie Anderson nos transmite forma e conteúdo dentro dos seus próprios limites que, no seu caso, vão seguramente bastante mais além do que os que encontram convencionados.

Também por isso, eu arriscaria a declará-la uma supermulher!

Texto de Luís Freixo
com fotografia de Jeroen Komen

Texto CC BY 4.0 e imagem CC BY-SA 2.0

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