A dupla checa Iva Bittová e Pavel Fajt leva-nos pela vanguarda europeia com influências da folk, da improvisação e da música contemporânea. Já o duo norte-americano de Shelley Hirsch e David Weinstein nos leva ainda mais longe, na indeterminação desta espécie de “no man’s land” musical.

Iva Bittová & Pavel Fajt – Svatba – CD – RERE117MCD (1988)

Erradamente comparada a Diamanda Galás, Iva Bittová (na foto) é mais benevolente com a sua voz e a pele do público. Não há dúvida que a sua versatilidade vocal e instrumental trazem arrepios, contudo as suas influências vêm da Folk centro-europeia, da música clássica contemporânea e da música improvisada. A intenção de Galás é o protesto penetrante, usando métodos extremos de expressionismo vocal. Bittová passeia pelos campos e pelas cidades, espreita nas tabernas e nos berçários, rouba técnicas aos povos ciganos e húngaros. Atira panfletos poéticos ao ar e corre frenética a apanhá-los, entretanto já modificados pelo trabalho fabuloso do percussionista Pavel Fajt, autêntico esquadrinhador dos seus passos, como um fiel urso guardião, às vezes pesado, outras vezes subtil para não ser notado.

Este é o segundo e último álbum da dupla, que esteve na génese dos Dunaj, banda de Rock avant-garde da República Checa. Bittová irá gravar uma série de discos igualmente ecléticos com outros músicos, do qual se destaca “Bílé Inferno” (1997), com o músico Václavek, também ele membro fundador dos Dunaj. Entretanto, Pavel Fajt gravará o excelente “Macaronic Sines” (1995), com a americana Anna Homler (novamente, uma cantora multidisciplinar) e o músico belga Geert Waegeman. Estamos em presença de criadores de primeiro plano, obviamente ignorados e/ou desprezados nos meios do Mainstream e da música como produto de consumo.

Shelley Hirsch & David Weinstein – Haiku Lingo – CD – RERE139CD (1989)

Improvisação ou não, é um disco espantoso, completamente desconhecido do Mainstream e dos continuam a ouvir a música-palhaçada e a música-vulgaridade. Shelley Hirsch é menos ritualistica do que Meredith Monk e Anna Homler. Ela assimila das ruas, dos cabarés e outros sítios perdidos do “bas-found” nova-iorquino, todos os tiques e diálogos espontâneos, excertos guardados de filmes e peças de teatro, glossolalias, sessões espírita e cartomancia – tudo é perfeito para agradar ao discurso vocal de Shelley.

Tudo menos Haiku pela brevidade – três temas compõem o álbum: dois longos, “Power Musak” e o tema-título são autênticos “maelstroms” de música eletroacústica preferencialmente improvisada, num devir extático que nunca percorre o mesmo caminho. David Weinstein, habituado a trabalhar com Elliott Sharp e Zeena Perkins, é aqui o maestro excêntrico da instrumentação. Para ouvir em qualquer altura que haja necessidade de nos desprendermos do mundo.

Texto CC BY 4.0 // António Jorge Quadros
Imagem CC BY-SA 2.0 // bagoum (Claire Stefani)

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