A loja da audEo

 

Goste-se de ouvir Tuxedomoon, Henry Cow ou National Health, os discos destes dois mestres dispensariam a referência ao seu brilhante passado, porque falam por si próprios e fascinam até mesmo os desinformados ou inadvertidos.

JOHN GREAVES – Life Size – 2018
BLAINE L. REININGER – Ocean Planet – 2023

A música de dois mestres dá-nos conforto e segurança, como dois bons amigos com quem sempre podemos contar. Greaves (ex-Henry Cow, National Health) anda fascinado com outras línguas que não o inglês, de modo que convidou para “Life Size” vozes como Annie Barbazza, Himiko Paganotti, a soprano clássica Valérie Gabail ou textos de Apollinaire, Joyce, Dylan Thomas ou Paul Verlaine. Para além de um belo grupo de músicos, nos quais se incluem Zeena Parkins e Lino Capra Vaccina. É um disco fascinante, iluminado por luzes difusas, em passos melancólicos, com surpresas inesperadas na escolha dos arranjos ou das vozes (em “Kew Rhone Is Real”, Greaves assemelha-se a John Cale).

O disco respira sem tempo ou qualquer moda oca por dentro, vive como se estas canções fossem o próprio quotidiano, dos gestos diários e dos ritmos que perseguimos como uma rotina benfazeja. O classicismo que ecoa na arquitetura das canções é de uma sensualidade que a capa traduz demasiado bem, entre a penumbra e os tons terrosos. A presença de Barbazza é fundamental para a alma do disco, mas também a subtileza do piano, da percussão e das cordas quase omnipresentes. John Greaves já não precisa de provar nada numa carreira que vem desde 1969 (com os Henry Cow), já não precisa de pedir desculpa ao Papa ou gravar com a Charli xcx. Desde que grave música que sempre soube fazer.

O ex-Tuxedomoon Blaine L. Reininger tem estado algo prolífico nos últimos anos, gravando bandas sonoras para teatro e televisão. É o que acontece com alguns dos temas incluídos em “Ocean Planet”. Surpreende ainda a sua voz, vigorosa e bem colocada (aqui e ali semelhante à de Greaves) a cantar textos de Shelley (fabuloso “Shelley Hellas”!), Beckett (“Bones” arrepia as paredes mais antigas da humanidade!) e a homenagear Camus em “Iris”. Entretanto, quando nos dá instrumentais, deixa-nos de boca aberta com a expressividade ígnea de “Firefly” (excelente uso do sintetizador Moog), a estranheza de “Bis Gems” (com as vozes femininas distorcidas pela triste monção das cordas) ou “Parc de la Villette (Another Fine Messiaen)”, lindíssimo exemplo de como uma peça instrumental nos pode tocar profundamente.

Reininger continua igual a si próprio, irreverente e inesperado, até para os cânones dos seus ex-Tuxedomoon. A capa é uma ilustração da sua companheira grega Maria Panourgia, encenadora teatral. O disco de Reininger têm a chancela da brilhante editora italiana Dark Companion, esteticamente irrepreensível, que também apoiou a gravação de “Life Size” na editora Manticore.

Texto CC BY 4.0 Deed // António Jorge Quadros
Imagem editada a partir de dois originais Copyright // Dark Companion Records

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Carrinho

X
Back to Top