A principal missão do londrino Sam Lee, cantor, produtor e especialista em vida selvagem, tem sido “encontrar novos universos sonoros para canções antigas”. Folk contemporâneo, sem partituras, nem pergaminhos.

SAM LEE – Songdreaming – 2024
É o quarto disco de Sam Lee (nascido em 1980) e poderá ser uma surpresa para quem nunca o tenha ouvido. Dispensem o tenebroso termo ‘neofolk’, que tingiu a música ancestral de raízes pagãs com o preconceito e a segregação que nunca teve. Isto é Folk contemporâneo, que escapa ao arranjo festivo e às danças que conseguem fazer ressuscitar um morto. Nesta estética, quase de Folk de Câmara, é a sobriedade e a contenção que prevalecem.
Com a produção meticulosa e estranhamente conhecedora do ex-Suede Bernard Butler, “Songdreaming” é, provavelmente, o melhor álbum de Folk britânica dos últimos anos. O decano Martin Carthy e Alasdair Roberts (contemporâneo de Lee), poderão ser a comparação mais aproximada, quer no timbre da voz, quer no minimalismo dos arranjos.
Lee sabe o que tem entre as mãos e a garganta. Séculos e séculos do cancioneiro antigo, transportado de boca em boca e alimentado pela estranheza das histórias, que tanto podem descrever os amores mais trágicos, como os crimes mais sangrentos ou a comunicação entre este mundo e o mundo dos seres maravilhosos. Lee trata destes nove clássicos com uma sabedoria e uma naturalidade raras. Se dúvidas existissem, bastava o recorte melancólico e solitário de “Black Dog And Sheep Crook”, que nos habituámos a escutar pela voz ressonante de Maddy Prior com os seus Steeleye Span nessa obra-prima de Folk gótico, “Below The Salt” (1972). Ou o lindíssimo “Meeting Is A Pleasant Place”, ecoando em espaços próprios para a acústica sagrada (muito devedora dos celtas).
Obviamente que “Bushes And Briars” teria de abrir com alguma profundidade e é isso que acontece, como um cortejo que se distingue ao longe por entre as sombras do bosque e vai assomando, verdejante, ao som dos instrumentos que se cruzam (sopros, gaita escocesa, violino, percussão). Com este tema, está a nossa atenção ganha. E se Lee tem a seu cargo um quinteto de músicos magníficos, versados no lado mais soturno da Folk (no qual se inclui Butler, austero, na guitarra), convidou ainda outro conjunto de músicos para as preciosidades sonoras: o ‘Qanun’ persa, o ‘Nyckelharpa’ nórdico ou algumas vozes espectrais, às quais ele chamou de ‘Trans Voices’.
Decididamente, a música Folk está entregue a quem sabe e se Sam Lee não se deixar deslumbrar (pensamos que não), temos a herança de Martin Carthy, Richard Thompson ou Donovan bem salvaguardada.
Texto CC BY 4.0 Deed // António Jorge Quadros
Imagem Copyright // Dominick Tyler
